Aventuras de Vera, Lúcia, Pingo e Pipoca; A ilha perdida; A montanha encantada; A mina de ouro; por Maria José Dupré (Senhora Leandro Dupré)

Os livros infantis de Maria José Dupré – Parte 1: Diversão e aventuras na fazenda do padrinho

por Daniel Medeiros Padovani

Capa do livro "A montanha encantada",
pela Editora Saraiva,
por Francisco Xavier de Paiva Andrade
1943 foi um ano marcante na carreira da Sra. Leandro Dupré, a nossa querida escritora Maria José Dupré (1905-1984). Seu primeiro livro, O romance de Teresa Bernard, ganhava sua segunda edição devido ao grande sucesso alcançado (leia mais nesse link). Ao mesmo tempo, lançava seu segundo livro, Éramos seis, que se tornaria em pouco tempo sua obra-prima, levando-a ao Prêmio Raul Pompéia da Academia Brasileira de Letras no ano seguinte (leia mais nesse link). Para terminar o marcante ano, seu marido, o engenheiro Leandro Dupré, a insere como sócia da recém-fundada editora Brasiliense, que tinha entre seus sócios fundadores o grandioso Monteiro Lobato, o pai e rei da literatura infantil brasileira (tanto que o Dia Nacional do Livro Infantil é comemorado em 18 de abril, data de nascimento do amado escritor). Coincidência ou não, esse ano marcaria também o ingresso de Maria José Dupré no mundo da literatura infantil.

Sua estreia se deu com Aventuras de Vera, Lúcia, Pingo e Pipoca publicado por sua nova casa editorial, a Brasiliense, que também trouxe novas edições de seus dois livros anteriores. Os personagens desse novo livro são crianças da cidade que transforma suas brincadeiras em aventuras num ambiente rural junto com seus parentes da fazenda.

Capa de "Aventuras de Véra e Lucia, Pingo e Pipóca",
pela Editora Brasiliense,
por Jurandir Ubirajara Campos (J.U. Campos)
Vera e Lúcia são primas que vivem na grande cidade de São Paulo. À convite do padrinho de Vera, as meninas vão passar as férias na fazenda do mesmo, que fica em Taubaté. Junto, levam seus cachorros Pingo e Pipoca. A casa da fazenda fica numa região alta onde dá pra ver as serras, morros e campos que circundam a área. Mas o que mais encanta as garotas é o rio que corta a fazenda, fazendo curvas e mais curvas em seu caminho. Juntamente com os filhos do padrinho, Quico e Oscar, as garotas e os cachorros se divertem nesse ambiente rural em aventuras deliciosas.

Assim, como ocorreu com Éramos seis, o livro recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Raul Pompéia. A primeira edição do livro, publicado em 1943 pela editora Brasiliense, teve sua capa e as ilustrações internas desenhadas pelo paulistano J. U. Campos (Jurandir Ubirajara Campos, 1903-1972), o genro de Monteiro Lobato. E assim com aconteceria com todas as obras de Maria José Dupré, Aventuras de Vera, Lúcia, Pingo e Pipoca (Aventuras de Véra e Lucia, Pingo e Pipóca, na grafia da 1ª edição) seriam reeditados pela editora Saraiva entre o final da década de 1950 e década de 1960.

Capa de "Aventuras de Vera, Lúcia, Pingo e Pipoca",
pela Editora Saraiva,
por Nico Rosso
Mas as aventuras das crianças na fazenda do padrinho não parariam por aí. Elas voltariam nos próximos anos a viver suas façanhas em mais três livros da escritora: os famosos A ilha perdida (1944), A montanha encantada (1945) e A mina de ouro (1946). Com exceção de Aventuras de Vera, Lúcia, Pingo e Pipoca que teve sua última edição na metade da década de 1960 (ou seja, a mais de 45 anos), os outros títulos são publicados até os dias de hoje pela editora Ática, encantando crianças de várias gerações.

Em A ilha perdida, Maria José Dupré volta ao universo da fazenda do padrinho quando dois primos de Quico e Oscar vão passar outras férias no local. Dessa vez os aventureiros serão os irmãos Henrique e Eduardo. Eles ficaram intrigados com uma ilha inexplorada que existe bem no meio do rio que corta a fazenda, aquele mesmo rio cheio de curvas que encantaram Vera e Lúcia. Os dois irmãos decidem chegar até à "ilha perdida", mesmo com a proibição do padrinho, para explorá-la. Ao descobrirem uma canoa abandonada à beira do rio, vê seus desejos tomarem forma. E assim remam até a ilha, mas não sem antes conseguirem um almoço bem reforçado com Eufrosina, a cozinheira da fazenda...
Capa de "A ilha perdida",
pela Editora Brasiliense,
por André LeBlanc

"Quem viveria lá? Seria habitada? Teria algum bicho escondido na mata?"
(citação extraída dos parágrafos iniciais do livro "A ilha perdida")

Capa de "A ilha perdida",
pela Editora Saraiva,
por Nico Rosso
Chegando lá, eles começam a andar pela mata da ilha, mas ao começar o anoitecer, decidem voltar para canoa, que sumiu! Passam a noite na ilha e na manhã seguinte veem um pesado tronco trago pela correnteza do rio destruir a canoa. Eduardo decide explorar mais um pouco a ilha, enquanto Henrique fica descansando na prainha. De repente, um homem barbudo, cabeludo e quase nu aparece e leva Henrique para uma caverna. O nome do habitante da ilha é Simão. Mas, apesar do que mostra sua aparência, Simão é um homem bom que ama viver entre os animais na floresta. E assim, na companhia de Simão, Henrique recebe uma bela lição de ecologia e meio ambiente. Após dias em companhia de Simão, Henrique volta para a prainha e descobre que seu irmão construiu uma jangada, que seria seu passaporte para voltar à casa do padrinho. Ah, e as meninas Vera e Lúcia, juntamente com seus cachorros Pingo e Pìpoca, aparecem nos capítulos finais do livro para mais uma temporada de férias.

Capa de "A montanha encantada",
pela Editora Brasiliense,
por André LeBlanc
Na terceira aventura da turma, A montanha encantada, as crianças voltam para a fazenda do padrinho para mais um período de férias. Desta vez, Vera, Lúcia, Quico, Oscar e Cecília ficam curiosos em descobrir o que significa a estranha luz que aparece no cume de uma montanha próxima. Com a aprovação do padrinho, as cinco crianças e os cachorros Pingo e Pipoca partem para uma excursão à "Montanha Encantada", onde escutam uma misteriosa música que aguçam sua curiosidade. Ao cair num buraco, eles são levados a um mundo novo, habitado por anões mineradores de ouro e descobrem qual é o segredo envolvendo a misteriosa luz.

Capa de "A mina de ouro",
pela Editora Brasiliense,
´por André LeBlanc
Por fim, chegamos ao quarto e último livro da série, A mina de ouro. Em nova estadia no período de férias escolares, a criançada de sempre (Henrique, Eduardo, Quico, Oscar, Vera, Cecília e o garoto Pedrinho) resolvem fazer um piquenique no Morro do Jaraguá. Para fazer companhia para eles, o novo mascote da turma: o cachorrinho Samba. No caminho, eles encontram um velha escada esculpida na rocha que os conduzem a uma mina de ouro abandonada (novamente!). Investigando mais profundamente os túneis da mina, eles perdem o caminho de volta, encontrando uma sala coberta de ouro onde passam dias. Somente as habilidades de orientação do cachorrinho Samba são capazes de conduzi-los ao caminho de saída e reencontrar Pedrinho, que não quis descer com eles na escada.

Capa de "A mina de ouro",
pela Editora Saraiva,
por Nico Rosso
Com esse livro, Maria José Dupré (ou Sra. Leandro Dupré, como assinava seus livros na época) encerra o ciclo de aventuras dessas crianças nas imediações da fazenda do Padrinho. Mas a literatura infantil de Maria José Dupré não pararia por aí. O grande herói do último livro, o cachorrinho Samba, que conduziu as crianças para fora da mina de ouro, ganharia nos anos posteriores uma série de seis livros que narrariam especificamente suas aventuras. E foram muitas e em muitos locais diferentes: na cidade grande, na floresta, na Bahia, na Rússia, entre os índios e na fazenda. Mas esse será o assunto da próxima postagem [link]. Por enquanto, basta saber que como já citado os livros foram publicados primeiramente pela editora Brasiliense e posteriormente pela editora Saraiva. Pela Brasiliense as capas e as ilustrações foram desenhadas pelo haitiano André LeBlanc (1921-1998), o mesmo ilustrador dos livros de Monteiro Lobato nas décadas de 1940, 1950 e 1960. A única exceção foi o primeiro livro da série, que como já citado, teve as ilustrações criadas por J. U. Campos. Pela editora Saraiva, as capas e ilustrações dos livros foram realizadas pelo italiano Nico Rosso (1910-1981), que ilustrou muitas capas dos livros publicados pela editora Saraiva nesse período. A única exceção foi a capa e ilustrações de A montanha encantada, produzidas por Francisco Xavier de Paiva Andrade (1896-1972). E, por fim, na década de 1970, os livros chegaram à editora Ática [link], onde continua encantando crianças até os dias de hoje!

Sem mais, good reading for you, buena lectura para usted, buona lettura per voi, bonne lecture pour vous, gute lektüre für sie, pānui pai hoki a koutou, sizin için iyi bir okuma... Boa leitura para vocês! \o/

2 comentários:

  1. Parabéns pelo resgate dessa escritora tão fantástica que, lamentavelmente, é pouco lembrada por seu país. Tenho lido seus posts e apreciado muito. "Éramos Seis" foi o primeiro livro adulto que li, aos 10 anos, e mudou minha vida. Depois descobri os livros infantis dela e deu-se a paixão arrebatadora pela autora.

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